Por ter ironizado a atitude de um candidato, que por se
julgar perseguido evocou o precedente de Jesus, recebi mensagem me acusando de
antievangélico. Quero dizer que não sou, e já elogiei o trabalho de mediação e
evangelização em favela, junto a traficantes, feito por pastores de várias
denominações.
Também sempre admirei a atitude (pelo menos essa) do general
Ernesto Geisel, que governou o país de 1974 a 79. Ditador com poder absoluto,
que fazia e acontecia, nunca tentou impor sua crença, o luteranismo, e sempre
respeitou a natureza laica do Estado, jamais misturando religião e política.
Essa mistura é que oferece perigo. Levada ao extremo, ao
fundamentalismo, sabe-se até onde pode chegar. Algumas das mais bárbaras
atrocidades deste século foram cometidas em nome de Deus: extermínio de
populações, decapitações, enforcamentos, infanticídios. Claro que nem de longe
há esse risco entre nós. Mas é bom evitar outros efeitos menos radicais e
perversos, mas também nocivos.
Analisando a crescente influência dos evangélicos no
processo eleitoral, a professora Magali Cunha, que entende do assunto, citou há
dias um levantamento que registra a existência de 327 candidatos crentes a
diversos cargos (hoje são três senadores e 70 deputados, terceira bancada da
Câmara), um indício, segundo ela, de avanço da democracia, embora preocupe a
presença de líderes religiosos “fazendo as vezes dos clássicos coronéis da
política”, os do “voto de cabresto”.
A força eleitoral desse movimento foi detectada pelos
marqueteiros, que estão levando seus clientes ao exagero de posarem que nem
fieis, como Dilma, reverente, ao lado do pastor Edir Macedo na inauguração do
suntuoso Templo de Salomão, depois de subir três andares de escada, coitada,
porque faltou luz. Ou Aécio Neves, com os braços estendidos, o rosto voltado
para cima em êxtase religioso. De fazer inveja a Marina, a única dos três que é
de fato crente.
Mas mesmo ela, mais discreta, cometeu um ato falho ao
atribuir à “providência divina” o acaso de não ter viajado no avião que matou
Eduardo Campos, o que deu margem na internet à interpretação grosseira de que o
acidente foi um desígnio superior para fazer de uma evangélica a presidente do
país.
Pior do que a leitura primária e obscurantista da religião,
como capaz de favorecer discutíveis interesses particulares, são o
desvirtuamento e o abuso da fé usada como moeda de troca em época de campanha,
quando muitas igrejas - nem todas, evidentemente - são transformadas em
verdadeiros currais eleitorais, a pretexto de que “irmão vota em irmão” e de
que Jesus, dependendo da oferta, pode eleger este e não aquele candidato.
(argento) ... segundo o Sistema de Crenças, "Ruim Com, PIOR Sem" ... pasme!, há quem acredite ... (argento)
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