sexta-feira, 13 de julho de 2018

Um asno chamado Crivella e seu livro

Semana passada, o prefeito carioca Marcelo Crivella (PRB) disse a pastores que eles deveriam procurar sua assessora Márcia Nunes para agilizar procedimentos médicos destinados aos seus fiéis, mas em seu livro ‘Evangelizando a África’ ele escreveu que a cura passa longe de gabinetes ou consultórios – seria alcançada pela fé. Segundo o então missionário da Igreja Universal do Reino de Deus em países africanos, “os remédios e médicos tratam dos efeitos, mas a causa de todos os males, que é espiritual, somente pode ser tratada com o poder de Jesus”. Na visão de Crivella, “a vontade de Deus para nós é a saúde perfeita” e as doenças “são causadas pelo diabo ou pelas circunstâncias causadas por ele”. Nesta quinta-feira, a Câmara Municipal do Rio discute dois pedidos de impeachment do prefeito, acusado de favorecer evangélicos em atendimentos na rede pública de saúde.

No Quênia, enganando os ingênuos e trouxas

No livro, publicado em inglês em 1999 e lançado no Brasil três anos depois, Crivella fala de “problemas e doenças eminentemente espirituais” e cita “vícios e homossexualidade” entre “os principais sintomas de possessão demoníaca” – os outros são desmaios e dores de cabeça constantes, pensamentos suicidas, insônia e medo. Segundo ele, os problemas físicos, “embora causados pelos espíritos imundos”, “ não significam dizer que a pessoa esteja possessa por um deles”. Diz que tais espíritos causam doenças mentais, físicas e espirituais. Entre estas últimas, ele cita “terríveis dores de estômago, dores de cabeça, tonturas, desmaios, crises e outros sintomas que, quando investigados, não levam a nada”. Como exemplo, Crivella relata o caso de uma enfermeira que, depois da morte do filho, passou a ter “terríveis dores de cabeça”. Após desmaiar e passar dias numa unidade de terapia intensiva, ela conseguiu a cura em um templo da Universal na África do Sul, “quando o espírito imundo foi expulso de sua vida”.

Hoje bispo licenciado da Universal, Crivella revela orar pelos médicos e frisa que a medicina é de Deus, mas ressalta que “o Senhor Jesus sempre lidava com as doenças como algo maligno e as expulsava como se fossem espíritos”. “Talvez hoje em dia chamássemos a febre que afligia o corpo da sogra de Pedro de infecção, tuberculose etc. Mas o Senhor repreendeu a febre, e a febre a deixou”. Para o prefeito do Rio, a questão é simples: “Na verdade, a febre era um sintoma, mas a causa eram os demônios”. Segundo Crivella, “não existe nenhuma situação na Bíblia que poderia nos fazer acreditar que o Senhor tem algum interesse em nos tornar doentes ou que Ele é o responsável por nossas doenças”.

Em outro trecho do livro, ele cita um texto em que o tio Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, atribui aos demônios a criação dos microrganismos que causam as doenças: “Toda doença tem uma causa, e essa causa é sempre um vírus, um bacilo, um germe ou uma bactéria que causa a destruição dos tecidos. Perguntamos: de onde vem essa vida? De Deus não pode ser, pois Ele não é destruidor”, conclui. De acordo com o bispo Macedo, para que um microrganismo “se movimente e destrua” é necessário “que haja uma força dentro dele; um espírito destruidor, e não podemos identificá-lo como nenhuma outra coisa, senão como uma força demoníaca”. Assim, para evitar doenças, o bispo receita “a precaução de se encher do Espírito Santo” – ele ressalva, porém, a importância da alimentação sadia e da necessidade de ninguém se expor a doenças transmissíveis.

Da Veja

quarta-feira, 11 de julho de 2018

QUEM PEDIU QUE MORO SE MANIFESTASSE SOBRE O HC DE LULA FOI O PRÓPRIO FAVRETO



Dando uma olhada no habeas corpus de Favreto em favor de Lula, verifiquei que lá no fim o desembargador pede ao “JUÍZO DE PRIMEIRO GRAU” que se manifeste, “se entender necessário”.

Ora, quem é o juiz de primeiro grau do caso? Sérgio Moro. E o que ele fez? Manifestou-se, por entender necessário, exatamente como Favreto determinou.

Pombas! Será que eu, um leigo, descobri a pólvora? Será que nenhum dos ilustres causídicos e magistrados que andam dando palpites a torto e a direito não se deram nem ao trabalho de ler a íntegra da decisão de Favreto? Ou será que é pura má vontade com Sérgio Moro?

Fico com a última opção. De qualquer maneira, lendo ou não, são uns merdas!

Quem quiser ler a merda toda: https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2018/07/leia-integra-da-decisao-de-desembargador-do-trf4-que-mandou-soltar-lula-cjjd03ajx0oo401qoemo7w0mm.html

segunda-feira, 9 de julho de 2018

A mentira do Extra e a picaretagem do tal Cacique Cobra Coral

O jornal Extra, resolveu publicar isto:


A Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) - entidade que afirma controlar o clima e tem convênios no Brasil - foi acionada na última sexta-feira por um bilionário britânico, o mesmo que teria contratado a entidade antes do casamento entre o príncipe Harry com Meghan Markle, para afastar as tempestades ou reduzir as chuvas na Tailândia, isolando o espaço aéreo da montanha na província de Chiang Rai, onde estão sendo resgatados meninos presos em uma caverna. Nesta segunda-feira, mais quatro garotos foram retirados, segundo fontes do time de resgate. Ainda há quatro presos.

A médium Adelaide Scritori, que diz incorporar o cacique, afirmou que a operação, que começou há dois na Tailândia, está sendo efetuada de São Paulo, Bangcog , Tóquio e Shangai, países vizinhos e que essa semana estão cercados de sistemas de baixa pressão, devido ao início do período de monções.

Segundo a assessoria de imprensa da FCCC, a tática foi de “não interferir nas monções”, o que poderia causar efeitos colaterais como secas. “O cacique optou por Isolar a região da montanha dando condições de resgate mas com os céus carregados apontados para a área, mostrando que a qualquer momento e como previsto o mundo poderia desabar”. Isso teria forçado as autoridades da Tailândia a aproveitarem a janela aberta nos céus e iniciar o resgate no domingo.

Eu tenho a certeza que a informação, obviamente falsa, foi dada pela tal FCCC, uma picaretagem medieval e escancarada que não tem mais lugar em pleno Século XXI, já que o pasquim cita apenas um "bilionário anônimo" como contratante. Não sabem escrever nem em português, que dirá traduzir alguma informação em inglês.

domingo, 8 de julho de 2018

O “burrículo” de um desembargador escroto



O desembargador federal Rogério Favreto, que mandou soltar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo trabalhou no primeiro governo do petista ao lado de ex-ministro José Dirceu e com a presidente cassada Dilma Rousseff na época em que ela era ministra da Casa Civil.

Faverto estava de plantão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, desde sexta-feira, 6. Ele acolheu pedido de três deputados do PT, Paulo Teixeira (PT-SP), Paulo Pimenta (PT-RS) e Wadih Damous (PT-RJ), suspendendo a execução provisória da pena até que a condenação em segundo grau contra o ex-presidente transite em julgado.

Antes de ser desembargador, Favreto ocupou cargos em gestões petistas, inclusive na era Lula e na gestão de Tasso Genro (PT) à frente da Prefeitura de Porto Alegre. Ao longo de 1996, coordenou a assessoria jurídica do Gabinete do Prefeito. 

Nos governos Lula, esteve em quatro ministérios diferentes. Primeiro, foi para a Casa Civil em 2005, onde trabalhou na Subchefia para Assuntos Jurídicos sob a chefia de José Dirceu e, depois, de Dilma Rousseff.

Nos anos seguintes, foi chefe da consultoria jurídica do Ministério do Desenvolvimento Social, cujo titular era o também petista Patrus Ananias. Depois, passou pela Secretária de Relações Institucionais e pelo Ministério da Justiça, nos anos em que Tasso comandava as pastas.


Estadão

sábado, 7 de julho de 2018

Brasil em segundo no ranking mundial de ignorância. Parabéns Paulo Freire!



Um novo estudo descobriu que um grande número de pessoas em algumas das nações mais desenvolvidas do mundo ignoram muitos tópicos importantes. O estudo “Perigos da Percepção” de 2017 da Ipsos MORI avaliou a percepção de 29.133 pessoas em todo o mundo sobre temas relacionados à sua nação e outros.

Os temas incluíram taxas de homicídio e suicídio, mortes resultantes de terrorismo, gravidez na adolescência, prisioneiros nascidos no estrangeiro e problemas de saúde como vacinas e diabetes. Outras questões abordadas nas entrevistas incluíram religião, consumo de açúcar e álcool e a porcentagem de pessoas que usam o Facebook e smartphones.

Os resultados mostraram que as pessoas em quase todas as 38 nações que participaram do estudo eram ignorantes nos tópicos mencionados, mas alguns eram piores do que outros. Os dados compilados mostraram que os escandinavos tinham a melhor ideia do que estava acontecendo em casa e no exterior, já que a Dinamarca, a Noruega e a Suécia foram as mais precisas, com os suecos assumindo o topo. No outro extremo do espectro, os três últimos em ordem decrescente foram Filipinas, Brasil e África do Sul.

Ranking da Ignorância
  1. South Africa
  2. Brazil
  3. Philippines
  4. Peru
  5. India
  6. Indonesia
  7. Colombia
  8. Mexico
  9. Turkey
  10. Saudi Arabia
  11. Argentina
  12. Italy
  13. Chile
  14. Japan
  15. Malaysia
  16. France
  17. South Korea
  18. Hungary
  19. New Zealand
  20. Netherlands
  21. Hong Kong S.A.R.
  22. Poland
  23. United States of America
  24. Russia
  25. Germany
  26. Australia
  27. China
  28. Singapore
  29. Israel
  30. United Kingdom
  31. Belgium
  32. Canada
  33. Republic of Serbia
  34. Montenegro
  35. Spain
  36. Denmark
  37. Norway
  38. Sweden


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Crivella: o sem-vergonha que governa só para a Universal e o “resto” dos cariocas que se danem


“Deus nos deu a oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem.”

“É esse Brasil evangélico que vai dar jeito nessa pátria.”

“Vamos aproveitar esse tempo na prefeitura para arrumar nossas igrejas.”

“Se os irmãos tiverem alguém na igreja com problema de catarata, se os irmãos conhecerem alguém, por favor falem com a Márcia. É só conversar com a Márcia que ela vai anotar, vai encaminhar, e daqui a uma semana ou duas eles estão operando.”

“É muito importante os irmãos ficarem com o telefone da Márcia ou do Marquinhos porque às vezes ocorre um imprevisto. Se houver caso de emergência, liga. Liga para a Márcia.”

O Globo

Em agenda secreta no Palácio da Cidade, na quinta-feira, o prefeito Marcelo Crivella ofereceu ajuda a pastores e líderes de igrejas que tenham problemas com IPTU em seus templos ou que queiram angariar fiéis que necessitem de cirurgias de catarata e varizes.

Intitulado “Café da Comunhão”, o encontro foi combinado por WhatsApp, em mensagem à qual O GLOBO teve acesso. Os organizadores pediram aos presentes que levassem “reivindicações por escrito, relações de suas igrejas e número de membros”.

O prefeito discursou por mais de uma hora, na presença do pré-candidato a deputado federal pelo PRB, Rubens Teixeira.

- Na prefeitura, estamos fazendo mutirão da catarata. A Márcia trabalha comigo há quinze anos. Ela conhece os diretores de toda a rede federal, Ipanema, Lagoa, Andaraí, Bonsucesso, do Fundão, ela conhece os diretores de todos os hospitais da rede municipal que eu já apresentei a ela, que já vieram e almoçaram conosco, de maneira que ela me representa em todos esses setores, Miguel Couto, Souza Aguiar, Lourenço, Salgado, Piedade e por aí afora. Nós estamos fazendo o mutirão da catarata. Contratei 15 mil cirurgias até o final do ano. Então se os irmãos tiverem alguém na igreja com problema de catarata, se os irmãos conhecerem alguém, por favor falem com a Márcia. É só conversar com a Márcia que ela vai anotar, vai encaminhar, e daqui a uma semana ou duas eles estão operando - disse, emendando:

- A outra são varizes. A maioria são mulheres que estouram uma variz na perna e abre uma ferida que não fecha. E a senhora apenas troca o curativo. Hoje existe uma maneira, injeta na veia dela uma espuma medicinal e fecha a ferida, uma benção. Também por favor falem com a Márcia. E tem a vasectomia para os homens, estamos zerando a fila. É muito importante os irmãos ficarem com o telefone da Márcia ou do Marquinhos porque às vezes ocorre um imprevisto. Se houver caso de emergência, liga. Liga para a Márcia e ela liga para mim, para o Marquinhos… É importante você ter um canal para poder socorrer num momento de emergência.

Sobre problemas de pastores com impostos, Crivella informou que é preciso “dar um fim nisso”.

- Tem pastores que estão com problemas de IPTU. Igreja não pode pagar IPTU, nem em caso de salão alugado. Mas, se você não falar com o doutor Milton, esse processo pode demorar e demorar. Nós temos que aproveitar que Deus nos deu a oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem. Temos que dar um fim nisso.

Crivella também ofereceu soluções para outros problemas, como, por exemplo, pontos de ônibus distantes de igrejas.

- Às vezes o pastor está na porta da igreja e diz assim: ‘quando o povo atravessa, pode ser atropelado’. Vamos botar um sinal de trânsito. Vamos botar um quebra-molas. Ou então o pastor diz assim: ‘o ponto de ônibus é lá longe, o povo desce e vem tomando chuva até a porta da igreja’. Então vamos trazer o ponto pra cá. Vamos aproveitar esse tempo que nós estamos na prefeitura para arrumar nossas igrejas. Se vocês quiserem fazer eventos no parque Madureira, está aqui o nosso líder, que é o doutor Valmir. Se vocês tiverem problema, tem o Manassés, o nosso companheiro, que cuida das pessoas com problema de vícios em drogas. Contem conosco, este palácio está aberto a vocês. Qualquer coisa, nossa equipe está aqui. Se as igrejas estiverem bem, crescendo, quantas tragédias não vamos evitar?

No fim do evento, a mulher de Crivella puxou uma oração:

- Que a Justiça venha a reinar nessa cidade, Senhor - disse ela.

Na sequência, a equipe de assessores de Crivella passou a anotar as demandas e pedidos dos presentes. Um dos organizadores anunciou que um novo encontro com “novos pastores” está previsto para acontecer “em breve”, e disse que, na ocasião de qualquer problema, os fiéis poderiam procurar a sala 1501 no prédio da prefeitura.

Em nota, a prefeitura informou que a reunião teve como objetivo prestar contas e divulgar serviços importantes para a sociedade, entre eles o mutirão de cirurgias de catarata e o programa sem varizes. E ressaltou que o prefeito “já recebeu os mais diversos representantes da sociedade civil, para tratar dos mais variados assuntos, tanto em seu gabinete quanto no Palácio da Cidade”.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Pasmem senhores: Lula criou até estatal que fabrica camisinhas - que faliu, é claro



Em crise, fábrica estatal de camisinhas na floresta naufraga e para produção - Folha

Anunciada como promessa de saída sustentável para o abastecimento nacional de preservativos, a fábrica estatal de camisinhas de Xapuri (AC) interrompeu sua produção e tem futuro incerto.

Com o nome de Natex, o empreendimento foi inaugurado em 2008, com investimentos do Ministério da Saúde, na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do então governador Jorge Viana (PT). A administração ficou a cargo da Fundação de Tecnologia do Estado do Acre.

Localizada na terra do líder ambientalista Chico Mendes, a fábrica foi pioneira por utilizar látex de seringueiras nativas. A ideia é que ela gerasse renda à comunidade local, ao mesmo tempo em que abastecesse o programa nacional de distribuição de camisinhas.

O Ministério da Saúde comprometeu-se a comprar toda a produção, com capacidade anual de 100 milhões de preservativos (quase um quarto do total distribuído ao ano no país), o que por algum tempo de fato ocorreu.

A quantidade adquirida, porém, despencou em meio a dificuldades financeiras do estado e a uma nova dinâmica na produção de matéria-prima.

Segundo a pasta, o contrato para o período de 2015 e 2016 previu 100 milhões de camisinhas. Já a compra mais recente, para fornecimento até 2017, foi de 41 milhões de unidades.

Neste ano, a situação se agravou, e a produção foi interrompida há um mês, de acordo com funcionários.

O prefeito de Xapuri, Bira Vasconcelos (PT), confirma e diz que todos os trabalhadores da indústria receberam aviso prévio no início de junho. Afirma que o município e o estado ainda buscam uma saída.

Para ele, a situação da fábrica decorre da insuficiência do valor pago pelo governo federal, de R$ 0,14 por preservativo. Segundo ele, o custo total é maior, e a gestão estadual vinha arcando com o valor extra, mas, com a crise econômica, não teve mais condições financeiras. "O custo está inviabilizando a fábrica", diz. "Estão vendo só o lado econômico, esquecendo os benefícios sociais e ambientais."

Em nota, o ministério diz que o contrato de 2018 para a compra de preservativos de Xapuri está em fase de "negociação de preço". A pasta afirma ainda que todas as aquisições "seguem a tramitação legal na busca do melhor custo e benefício", levando em conta itens como avaliação de preço de mercado, concorrência entre fabricantes, qualidade e custo do produto na fábrica.

Procurada, a gestão Tião Viana (PT) afirmou apenas que o governo está realizando reuniões a respeito da situação da Natex e que se pronunciaria em breve. Em 2016, o estado tentou privatizar a estatal, mas não houve interessados.

Neste ano, houve nova tentativa de terceirizar a gestão. Uma das empresas procuradas para assumir a fábrica foi a Cooperacre, que reúne mais de 20 cooperativas extrativistas. "Fomos sondados, mas não temos condição de assumir agora", afirma o presidente, Manoel José da Silva.

Segundo o prefeito do município, outras alternativas em estudo para a Natex são mudanças logísticas para reduzir custos e mesmo pessoal. Não está descartada a transformação da fábrica em outro empreendimento, como uma indústria de luvas cirúrgicas.

Mesmo que se encontre uma saída, a reabertura dos trabalhos esbarrará em outro problema: a disponibilidade de látex nativo. Sem vender para a indústria, os seringueiros encontraram outro cliente, justamente a Cooperacre.

Em vez de látex, a empresa compra o GEB (granulado escuro brasileiro), composto sólido usado para a fabricação de objetos como pneus e sola de calçados. Segundo o líder local dos seringueiros, Francisco Assis de Oliveira, o preço pago pelo produto é similar ao do látex para preservativo.

O trabalho que os seringueiros têm, porém, é bem menor. Isso porque, para obter o látex, é preciso sangrar a árvore e voltar para recolher o látex no mesmo dia. No caso do GEB, espera-se mais tempo para retornar. Além disso, diz, em 2017 a Natex atrasou a compra, gerando insegurança.

Segundo ele, durante um bom tempo a fábrica foi a única compradora dos extrativistas, mas ultimamente "estava ficando difícil convencer o seringueiro [a produzir látex]".

Independente da saída, o problema gera desgaste ao governo Viana. "Eles tinham venda garantida e mesmo assim conseguiram parar a fábrica", diz o deputado estadual Antônio Pedro (PDT), natural de Xapuri, que afirma ter recebido denúncias de trabalhadores com salário atrasado.

Ex-diretor de Programa Nacional de DST e Aids, com passagens pelos governos FHC e Lula, Pedro Chequer conta que a ideia da fábrica de preservativos começou a ser estudada no fim dos anos 1990, quando havia problemas constantes na importação do produto para o Brasil.

Hoje, diz, não há mais risco imediato de desabastecimento, porque há disponibilidade de outros fabricantes e porque muitas pessoas têm deixado de se proteger. Para ele, porém, o empreendimento era estratégico, ao gerar renda e ser um passo inicial para a autossuficiência na produção de preservativos no país.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Em tempos de fact checking, tome nota:


1. Os juros da dívida não consomem metade do orçamento do governo federal.

2. Um salário de R$ 3.500 já é suficiente para colocar um brasileiro no topo da pirâmide social, entre os 10% mais ricos do país.

3. Não é possível criar riqueza apenas imprimindo dinheiro.

4. Não há socialismo na Escandinávia. Há o exato oposto: propriedade privada, livre comércio, rule of law e liberdades individuais. Segundo o Banco Mundial, a Dinamarca é o 3º país mais fácil do mundo para uma empresa privada fazer negócios (à frente dos Estados Unidos); a Noruega é o 8º, a Suécia é o 10º e a Finlândia é o 13º. O Brasil ocupa a posição 125 da lista. A Venezuela está em 188º - isto é socialismo.

5. O Brasil nunca esteve minimamente perto de ser um país "neoliberal". Há mais estatais por aqui do que em qualquer país membro da OCDE, a organização que reúne as 35 nações que aceitam os princípios da economia de mercado (na lista estão todos os países da Escandinávia, a propósito). Segundo um estudo publicado em 2017 pela FGV, o Brasil possui pelo menos 442 estatais, somando União, estados e municípios.

6. Entre 2003 e 2015, os governos Lula e Dilma bancaram R$ 3,5 trilhões em subsídios para os empresários brasileiros, incríveis oito vezes mais do que governos "neoliberais" poderiam levantar se vendessem para a mesma iniciativa privada todas as 168 estatais e 109 subsidiárias (da União e dos estados) com potencial - especialmente legal - para serem privatizadas.

7. A ideia de que para um país enriquecer outro precisa empobrecer é uma espécie de terraplanismo na ciência econômica e já foi refutada há exatos 201 anos.

8. Entre 1994 e 2016, o Brasil viu o seu PIB per capita expandir 31%, enquanto a América Latina e o Caribe cresceram 37% e os demais países emergentes cresceram 152% no mesmo período. Os países membros da OCDE e os Estados Unidos, nações desenvolvidas, também exibiram um crescimento superior - de 42% e 46%, respectivamente. Ou seja: se o Brasil testemunhou um crescimento econômico nas últimas duas décadas, durante os governos de PSDB e PT, ele foi menor que a média mundial - e especialmente menor comparado aos países emergentes. Na prática nós perdemos uma janela de oportunidade.

9. De acordo com um estudo publicado por dois economistas do IPEA com um auditor da Receita Federal, a concentração de renda permaneceu estável no Brasil entre 2006 e 2012. Os autores concluíram que os coeficientes de Gini, usados para medir a desigualdade, alcançaram 0,696 (em 2006), 0,698 (em 2009) e 0,690 (em 2012). De acordo com outro estudo, feito pelo World Wealth and Income Database, a desigualdade de renda no Brasil não caiu entre 2001 e 2015. Na verdade, os 10% mais ricos da população aumentaram sua fatia na renda nacional de 54% para 55%, enquanto os 50% mais pobres ampliaram sua participação de 11% para 12% no período. Na prática, o crescimento econômico visto no país não surtiu impacto na redução da desigualdade: ele foi capturado principalmente pelos 10% mais ricos, que ficaram com 61,3% desse crescimento no período, enquanto a metade mais pobre da população apreendeu apenas 21,8% desses ganhos.

10. Há inegavelmente um rombo na previdência social brasileira. E ele aumenta a nossa desigualdade. Considerando os últimos 15 anos, o déficit do sistema de previdência social do setor público somou R$ 1,3 trilhão para quase 1 milhão de pessoas, enquanto o déficit do INSS somou R$ 450 bilhões para 29 milhões de aposentados. Na prática, o gasto com 980 mil funcionários públicos é igual ao de todo o INSS. Vale destacar que o gasto com previdência no Brasil não é apenas o mais alto entre os países de população jovem, nós também gastamos mais que o dobro de países desenvolvidos com a previdência dos funcionários públicos. Esta é uma bomba-relógio que estourará mais cedo ou mais tarde no seu colo. E há uma boa chance de você ainda não ter sido bem informado sobre isso.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Os fantasiosos números de mortes LGBT


O leitor deve sempre se questionar em relação aos dados estatísticos do movimento LGBT. Geralmente demonstram distorções explícitas.

Fábio Martins

O grupo gay da Bahia presidido por Luiz Mott, aquele que é a favor da descriminalização da pedofilia e autor do conto (Meu Menino Ideal), que conta o tipo de menino - criança - que mais lhe atrai sexualmente, deu recentemente entrevista ao Diário do Nordeste relatando horrorizado o fato de ter havido número recorde na morte de homossexuais no Brasil, em 2015. Ao total foram vitimados 318 homossexuais no país.

Mott atribui o aumento nas mortes de gays ao avanço do pensamento neoliberal e a agenda de direita. Mas ele “esquece” de dizer que na era PT, o número de assassinatos de gays já vinha em uma crescente.

O movimento gay da Bahia só não pode, e nunca poderá atribuir as mortes citadas a uma escalada de homofobia. Afinal, para eles toda morte de um gay é precedida de uma conduta homofóbica. Conduta esta que nem sempre está efetivamente presente na ação. Este mesmo movimento não diz que entre os 318 vitimados, há aqueles que foram mortos por outros homossexuais, seja briga de casal, ciúme, briga por pontos de prostituição, uso de drogas entre outras milhares de vertentes.

Mott não faz ligação entre o aumento de mortes de gays com o número também crescente de assassinatos de brasileiros de modo geral. É óbvio que se o número da violência no país está em ascensão, fará com que fatalmente todos os índices de mortes cresçam consideravelmente não apenas entre gays, mas entre todo e qualquer grupo de pessoas no país.

Para se ter ideia da incomparável diferença de números: no Brasil morre alguém a cada 9 minutos, esse número supera e muito a Síria, país em plena guerra civil. Mott destaca que as maiores vítimas do preconceito são transexuais. Ele divulga dados estatísticos por região, no Sul, por exemplo, foram mortos 0,8 a cada milhão de habitantes. Os dados que o próprio Mott divulga nos dá a plena certeza de que não há perseguição contra gays no Brasil.

Em 2015, morreram cerca de 60 mil brasileiros vítimas da violência. Para se ter ideia, a cada morte de homossexual no país, temos outras 434 mortes de não gays. Frente aos dados poderíamos dizer que a classe LGBT é a mais segura do país. Entretanto, apesar de tudo, ainda se sentem perseguidos por algo irreal e exigem leis para a homofobia.

A questão é: Como saber se o sujeito é ou não homofóbico? Se eu xingar um gay por conta de um fato não ligado com a condição sexual do mesmo estaria eu sendo homofóbico? Não. Mas para a tal lei de homofobia eu estaria praticando crime de ódio. A grande questão dessa lei, que ainda não está em vigor é esta: Como medir a homofobia em alguém? Só se pode fazê-lo mediante exame clínico-psicológico. Qualquer tentativa de se imputar crime antes dessa avaliação será feita de forma injusta e precipitada.

O leitor deve sempre se questionar em relação aos dados estatísticos do movimento LGBT. Geralmente demonstram distorções explícitas. 318 mortos (incluindo nove suicídios, admitidos por Mott) contra 60 mil mortes é um número demasiado pequeno para que se alegue perseguição.

O crime contra um homossexual somente por esta condição é algo que não deve ser de fato tolerado. Já existem nas leis artigos que podem enquadrar alguém que comete crime de ódio. A criação de uma lei contra a homofobia nada mais faria do que dar poderes nunca dado antes a uma determinada classe de pessoas.

Não nos esqueçamos de que o movimento LGBT é um organismo internacional financiado por Soros entre outros magnatas mundiais. O foco do movimento LGBT vai muito além da simples proteção de sua comunidade, na verdade há um grande esquema de controle e transformação da sociedade e sua leis morais e religiosas. Portanto, não caia nas armadilhas estatísticas do grupo gay da Bahia. Estude o assunto e verá que os números não representam nem de perto qualquer perseguição em menor ou mais grau contra gay algum.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

Israel e palestinos: outro guia contra mais mentiras deslavadas


Como a guerra, o conflito no Oriente Médio é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos dos desinformadores profissionais

Por Vilma Gryzinski

Uma bebezinha de apenas oito meses apareceu em imagens do mundo todo. Os olhos azuis brilhando no rostinho redondo já estavam apagados, a face sem cor, o corpinho alquebrado. Mesmo assim continuava sendo exibido pela família, em imagens de cortar o coração.

A tragédia da breve vida interrompida de Layla Gadhour é um exemplo terrível das mentiras propagadas sobre o conflito entre árabes e judeus naquela que para os cristãos é a Terra Santa (santa, não sagrada, como a tradução torta).

A família da pequenina Layla disse que ela foi morta com gás lacrimogêneo jogado pelo Exército israelense contra as pessoas que há várias semanas tentam derrubar a cerca entre Gaza e Israel.

Como uma bebezinha foi parar num dos lugares mais violentos da face da Terra no momento? Uma “confusão” com ambulância, diz a família.

Como uma ambulância foi parar na zona de perigo? “Fui procurar minha filha e disseram que ela tinha sido levada para o hospital”, disse a mãe, Seham Gandhour.

Como uma mãe não sabe onde está filhinha de oito meses e ponto de precisar “procurar” por ela?

Um site israelense disse que a menininha morreu de uma doença preexistente, atribuindo a informação a um “médico de Gaza”. Pode ser mentira, pois a desinformação deliberada costuma ser alta.

Mas qual a única alternativa a essa explicação? Uma ambulância maluca que ruma com uma bebê exatamente para a área aberta e conhecida onde estão sendo disparados tiros?

O uso da pequena Layla como arma de propaganda ilustra um dos aspectos do conflito atual: coordenar atos violentos junto à cerca e incentivar tentativas de derrubá-la, sabendo que o Exército de Israel não vai permitir isso, é uma política deliberada para produzir vítimas.

Em vários sentidos, essa política funciona. A agitação em torno da cerca, seguida da inevitável repressão, ofuscou a inauguração da nova embaixada americana em Jerusalém (na verdade, uma nova placa, no consulado que já existia, embora o significado político não mude em nada com isso).

O número de mortos – mais de 60 – e feridos, atingidos principalmente por tiros nas pernas, causa consternação e protestos de vários governos.

Levantam também questões sobre as regras de engajamento para uso de força letal por parte das Forças de Defesa de Israel.

Até os grandes ajuntamentos de segunda-feira, o dia mais mortífero, havia uma sequência: palestinos de Gaza, incluindo mulheres e jovens, começavam a se aproximar da cerca; a certa altura, uma parte deles começava a queimar pneus, jogar coquetéis molotov e até empinar pipas com produtos inflamáveis para provocar incêndios no lado israelense.

Alguns apareciam com armas, sinal de que são militantes do Hamas, a organização político-militar que controla Gaza.

Outros, com alicates para tentar cortar a cerca. Os soldados israelenses tinham uma visão razoável dos que representavam uma ameaça iminente de perigo. Houve casos aparentes de uso excessivo da força.

Os israelenses receberam ordens de moderar o uso de munição letal e praticamente não houve mais mortos. A Suprema Corte de Israel ainda está para anunciar uma decisão sobre este tipo de engajamento.

Com os grandes movimentos que coincidiram com a inauguração da embaixada americana, a situação piorou bastante.

É exatamente esta a política do Hamas: quanto pior, pior para os israelenses. As vidas sacrificadas evidentemente não contam. São denominados como mártires e juntam mais alguns litros no caldeirão de ódio.

Por que tantas pessoas estão dispostas a ir desarmadas a um lugar onde sabem que, dependendo do nível de agressão, podem perder a vida (mas, se ganharem alguma brecha na cerca, podem “matar judeus”, como muitos dizem)?

Gaza, com certeza, é um lugar horroroso. É muito importante saber por que se tornou assim. Um dos principais motivos dessa importância: muitos israelenses judeus vêem em Gaza o exemplo acabado do que acontece quando devolvem territórios esperando uma acomodação com a população palestina.

A Faixa de Gaza foi conquistada ao Egito, juntamente com o Sinai, em 1967, quando exércitos árabes tentaram invadir e eliminar Israel do mapa. O Egito abriu mão do território quando fez um acordo de paz com Israel, em 1979.

Com outro acordo, o de 1994, a liderança palestina no exílio voltou a territórios com diferentes graus de autonomia. Estas regiões ficaram sob o controle da Autoridade Palestina. Gaza só acabou desocupada, na marra, por decisão de Ariel Sharon, em 2005.

As instalações deixadas pelos israelenses obrigados a sair de Gaza, onde desenvolviam principalmente a agricultura de deserto, foram completamente destruídas. Um importante sinal da cultura de ódio ao ponto da autodestruição do que ainda estaria por vir.

A liderança palestina, desde o início nas mãos da Organização para a Libertação da Palestina, montada segundo o modelo esquerdista em vigor na década de 60, começou a enfrentar a concorrência do movimento político-religioso de matriz fundamentalista.

O Hamas, que segue o molde da Irmandade Muçulmana, tornou-se forte especialmente em Gaza, devido à conexão com o Egito, o lugar onde nasceu esse movimento.

Em 2007, o Hamas deu um golpe na Fatah, o grupo tradicional da OLP. Massacrou o adversário (120 combatentes mortos no total, mais 39 civis). Quem não fugiu, morreu.

O bloqueio de Gaza, decretado por Israel e pelo Egito, surgiu aí. O Hamas era uma força hostil, sem nenhum compromisso com acordos anteriores e com o objetivo declarado de eliminar Israel do mapa.

O bloqueio, terrestre e naval, um instrumento legítimo de autodefesa, não significa que Gaza tenha virado “uma prisão a céu aberto”. Exceto em momentos de conflagração geral, cerca de 800 caminhões entram por dia em Gaza, levando suprimentos bancados pelo Catar, o grande sustentáculo do Hamas.

Todas as tentativas de “reconciliação” entre Hamas e Fatah são isso: tentativas. A principal passagem dos comboios de caminhões, por exemplo, foi totalmente destruída na atual onda de protestos e agressões junto à cerca. Motivo? É controlada pela Fatah.

Novos conflitos estão sendo desenhados para o período que se seguirá ao fim de Mahmoud Abbas no controle da Autoridade Palestina. Abbas está com 81 anos, embora continue a falar coisa com coisa.

Recentemente, disse que o genocídio dos judeus na Europa foi consequência do próprio comportamento deles, que “emprestavam dinheiro” e outras coisas que, pela lógica dos imorais, só podia acabar na eliminação em massa.

Quando morava na União Soviética e se aperfeiçoava como informante da KGB, entre estudos universitários, Abbas escreveu uma tese com “a verdade sobre o Holocausto”.  Não é difícil imaginar o conteúdo.

Abbas teve a honradez de pedir desculpas pela recente barbaridade, o que deve ser reconhecido e elogiado.

Muitas vezes, ele e outros líderes palestinos usam o duplo discurso, para o público interno e o externo. Também fazem declarações inúteis, só para constar.

O exemplo mais repetido recentemente por Abbas: os Estados Unidos se “desclassificaram” como mediadores ao transferir a embaixada para Jerusalém.

Faz parte do show, apesar do ridículo inerente. O importante é entender como se desenvolvem as disputas internas entre palestinos, um fator determinante no presente e no futuro, e como as diferentes tendências políticas em Israel veem a possibilidade de entendimentos.

Dá para imaginar um governo israelense, nem que fosse de esquerda – possibilidade inexistente no momento -, que levantasse o bloqueio a Gaza e abrisse a cerca para que seus cidadãos fossem eviscerados pelos vizinhos?

Evidentemente, não.

Dá para imaginar um governo israelense que aceite um acordo com a Autoridade Palestina, evidentemente proposto pelos Estados Unidos, implicando não só Fatah e correlatos como a maioria dos países árabes nas garantias de não-agressão em troca da criação de um estado palestino viável?

É difícil, mas é a única esperança. Nesse caso, o único com cacife para bancar algo no gênero, no momento, seria Benjamin Netanyahu. Será que Donald Trump levantou a bola dele para depois mandar a conta?

Trump também já disse que Gaza poderia ser a Singapura do Oriente Médio, tamanha a quantidade de ajuda receberia no caso de um acordo de paz.

Um grupo político como o Hamas, que escolhe deliberadamente prejudicar seu povo ao máximo, inclusive queimando vidas descartáveis, e que tem apoio popular justamente por representar a rejeicionismo, pode ser sensível a esse argumento?

A paz só pode ser feita com inimigos. Nesse jogo, uma grande parte será feita pelos países que sustentam o Hamas.

Sustentar a propaganda do grupo,  inclusive “comprando” mentiras e versões absurdas, contribui para mantê-lo no caminho errado.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Seria Bolsonaro um direitista de esquerda?


Antes do artigo um pouco óbvio, mas bem alinhavado, eu gostaria de dar um pitaco. Bolsonaro e Lula não podem ser enquadrados como direita e esquerda. Suas parcas educações e sumárias culturas estão longe de ser suficientes para que se lhes atribua alguma ideologia, a não ser que se considere o poder pelo poder como tal.

Fernando Schüler, na Folha
  
Há uma sensação de insegurança em nossas cidades e de incerteza em nossa democracia. As pessoas desejam ordem. O ponto de Bolsonaro não é discutir se a idade mínima da aposentadoria deve ser aos 60 ou 65 anos, mas insistir em uma pergunta muito simples: quando seus filhos saem à noite, você tem certeza de que eles irão voltar?

Ok, tudo isto faz parte de uma estratégia. Bolsonaro está longe de ter um programa estruturado para a segurança pública. Ele sabe que isso conta muito pouco em uma eleição. Seu ponto é encarnar a imagem do homem providencial que bate no peito e dá conta do problema.

Vai daí o repertório de frases de efeito e a agenda genérica envolvendo a crítica aos direitos humanos, amplo direito ao porte de arma, redução da maioridade penal e aprovação do chamado excludente de ilicitude, que, no limite, dá carta branca para a polícia “fazer o seu serviço”.

O foco de Bolsonaro parece bastante claro: ele confia que esta é uma eleição pulverizada e que é possível a um candidato chegar ao segundo turno com menos de 20% dos votos. Isto posto, suas posições extremadas e favoráveis ao regime militar (sob muitos aspectos inaceitáveis) estão longe de ser um problema.

Pesquisa do Pew Research Center mostrou que 38% dos brasileiros simpatizam com a ideia de um governo militar, percentual acima da média latino-americana. Entre os que não têm ensino médio completo, o apoio aumenta e vai a 45% da população.

Mesmo contando relativamente pouco para o sucesso ou insucesso eleitoral, vale perguntar qual é, afinal de contas, a visão econômica de Bolsonaro. Sua retórica é incerta, mas não é difícil ter uma ideia aproximada do que pensa o deputado observando suas votações no Congresso.

Se tomarmos sete votações estratégicas, de um ponto de vista econômico, teremos o seguinte quadro: Bolsonaro se absteve na votação da Lei da Terceirização; apoiou a PEC do teto, o fim da participação obrigatória da Petrobras no pré-sal, a reforma trabalhista e a criação da TLP; foi contra a reforma da Previdência e a recente Lei do Cadastro Positivo. Na votação sobre os aplicativos de transporte urbanos, não compareceu.

Este histórico não autoriza, ao menos não de forma nítida, a definição de Rodrigo Maia, segundo a qual Bolsonaro seria um tipo de direita, nos valores, e de esquerda, na economia. A ideia é sedutora.

Ao contrário do que ocorreu no mundo anglosaxônico, com sua mescla de conservadorismo cultural e liberalismo econômico, teríamos criado a síntese brasileira: o direitismo de esquerda.

Mas o fato é que isto é apenas uma meia verdade. Bolsonaro é um personagem dúbio. Ele diz que até pode ser a favor da privatização da Petrobras, mas com uma golden share e dependendo de quem serão os compradores.

Sobre a autonomia do Banco Central, foi bastante objetivo, defendendo “mandatos e metas de inflação claras, aprovadas pelo Congresso”.

Sua aproximação a Paulo Guedes e economistas liberais, que parece bastante sólida, sugere um personagem em transição entre o nacionalismo folclórico, do início da carreira, a posições pró-mercado pontuadas por eventuais recaídas, marcadas pela fraseologia contra o sistema financeiro e coisas do tipo.

Bolsonaro é um caso típico de populista em um dos sentidos sugeridos por Joel Pinheiro da Fonseca: na aposta na lógica da divisão social, do nós contra eles, na ideia vaga, ainda que sedutora, dos “cidadãos de bem contra a elite progressista que quer corrompê-los”.

Neste ponto, ele não se distingue muito da esquerda, na mão inversa. É uma retórica eficiente, nestes tempos em que a democracia foi assaltada pela guerra cultural.

Quanto à agenda econômica, não é clara a associação de Bolsonaro ao populismo. Suas posições recentes, no Congresso, não autorizam objetivamente este enquadramento.

O ponto é que tudo isso parece andar distante da demanda dos eleitores e do debate que se estabeleceu, pelo menos até agora, na corrida eleitoral. O futuro dirá para onde exatamente caminhamos.

Chefe de análise de risco soberano da agência de rating Moody's elogia Temer


LONDRES - Mais como um movimento reativo do que proativo, o presidente Michel Temer fez em dois anos de governo mais do que outros comandantes do Brasil em quatro ou oito anos.

A análise foi apresentada nesta terça-feira, 15, ao Estadão/Broadcast pelo chefe de análise de risco soberano da agência de rating Moody's para a América Latina, Mauro Leos, quando questionado sobre se ele já havia visto o polêmico slogan do governo “O Brasil voltou, 20 anos em 2”.

“Não sei se foram 20 anos, 15 ou 10 anos, mas o fato é que, para um presidente que começou a governar no meio de uma administração, para um presidente que tem sua legitimidade questionada, para um presidente que foi apontado em caso de corrupção também questionável, ele fez muita coisa em um curto período de tempo”, avaliou o executivo em Londres, durante uma pauta no evento “Emerging Markets Summit”, promovido pela Moody's.

Além de colocar em prática reformas consideradas essenciais para o País, Temer acertou, na opinião de Leos, ao encaminhar também questões microeconômicas. Além disso, apresentou avanços em marcos regulatórios, na governança corporativa para estatais, na nova forma de atuação da Petrobrás, e na reforma trabalhista.

“Ele fez isso não apenas porque contou com bons conselheiros, mas porque é um político de operação. Se há alguém que sabe lidar com o Congresso, é Temer. Eu não acho que ele tenha feito essas coisas porque sempre tenha pensado desse jeito: 'quando eu for presidente, vou fazer as reformas'. Acho que ele fez estas coisas porque buscou um caminho para compensar essas questões negativas, mas foram mudanças importantes. Ele fez em apenas dois anos o que muitos presidentes fizeram em quatro ou oito anos, esta é a realidade”, comparou.

O executivo da Moody's foi questionado, então, sobre os números do mercado de trabalho, que não mostraram melhora após as mudanças nas regras de contratação. Para Leos, o resultado pode não vir tão rapidamente e citou seu país de origem, o México, em que o impacto foi visto apenas quatro anos depois de as alterações terem sido feitas.

“Tudo o que podemos dizer é que muitos analistas acreditam que esta administração fez o que era preciso ser feito. É o caso da reforma da Previdência, que precisa ser feita. No médio prazo, se verá resultado, no curto prazo, depende do ciclo econômico, então, não muda o número, mas é um bom sinal para o sentimento do investidor”, considerou.

“Temos que reconhecer que ele (o presidente) fez coisas que podem não ter dado resultado ainda, mas que são importantes e podem fazer diferença sobre como as coisas vão ocorrer no futuro”, continuou.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O Brasil não acabou


Entrevista de Fernando Gabeira ao Estadão

“Seria excelente se discutíssemos com paixão, compreendendo que as ideias brigam, mas as pessoas não devem brigar.”

Jornalista e escritor, hoje com programa na GloboNews e coluna no jornal O Estado de S.Paulo, aos 77 anos, Fernando Gabeira protagonizou importantes momentos da vida política brasileira. Mineiro de Juiz de Fora, mas muito mais carioca da gema, combateu a ditatura; foi candidato a governo e prefeitura do Rio de Janeiro e também à presidência da República; deputado federal por quatro mandatos consecutivos; e pioneiro na defesa do meio ambiente. Apesar do admirável e longo percurso na política acabou por abandonar a atividade. Voltou para as redações, onde começou sua vida profissional, e dedica-se também à produção literária.

Gabeira participou da luta armada contra a ditadura militar como militante do movimento Revolucionário Oito de Outubro, o famoso MR8. Em 1969, sequestrou, junto com mais 11 jovens guerrilheiros, o embaixador norte-americano Charles Elbrick. O episódio foi relatado em seu livro “O que é isso companheiro?”, que virou um clássico da literatura nacional. Um ano depois, ao resistir à prisão, levou um tiro nas costas que perfurou o fígado, mas resistiu. Passou então uma década exilado no Chile, Itália e, principalmente, na Suécia onde estudou Antropologia pela Universidade de Estocolmo.

Quando a ditadura entrou em declínio, Gabeira voltou ao país e virou, novamente, assunto nacional. Não mais pela ousadia de, ainda garoto, capturar diplomata e enfrentar os anos de chumbo. No verão de 1980, o ex-guerrilheiro, acostumado a frequentar nu as praias da Grécia, passou a comparecer ao Posto Nove, em Ipanema, vestido com uma tanga lilás de crochê. Com isso pretendia debater o machismo e a diversidade sexual. Esse foi outro aspecto político de sua trajetória: a defesa de pautas polêmicas como profissionalização da prostituição, casamento gay e legalização da maconha.

Nesse maio de 2018, em que se comemora os 50 anos de maio de 1968, o Brasil atravessa uma de suas maiores crises – política, moral e econômica. Os momentos são distintos, mas a data emblemática. Para pensar o contexto atual do país sob essa perspectiva histórica, o blog entrevistou Fernando Gabeira. Discreto, elegante e muito lúcido, o jornalista retirou-se da política, mas não desistiu do Brasil.

Por Juliana Cunha Lima Neves

*Estamos em maio de 2018, comemorando 50 anos de maio de 1968. Para o senhor, que foi testemunha e protagonista de nossa história política, o Brasil está melhor? Valeu a pena a luta?
A luta que houve no Brasil não está circunscrita apenas ao que houve, em 1968. Ela é muito mais ampla. Valeu a pena porque conquistamos a democracia, ultrapassamos o primeiro obstáculo que era a impossibilidade de escolher diretamente um presidente da República, surgiu o movimento em torno das eleições diretas e, depois disso, houve um processo democrático que chegou ao ponto que chegou.
Hoje o sistema partidário está falido, mas as instituições que o regulam estão trabalhando no sentido de punir responsáveis pelos erros que aconteceram, que é o caso da Lava Jato. E prepara-se agora, no processo eleitoral, uma resposta articulada da sociedade sobre tudo isso que aconteceu. Evidentemente que é uma resposta limitada. Não houve uma reforma política de fato. As coisas estão de tal maneira, que as portas da renovação estão muito estreitas. Mas, o processo democrático está em curso e teremos que partir dessa crise para reconstruir.
Não que o país esteja destruído. Reconstruir o sistema político, partidário, as estruturas políticas com um objetivo de estabelecer, novamente, uma conexão entre o sistema político e a sociedade.

*E nos costumes, no que o senhor acha que avançamos ou regredimos?
Na verdade os movimentos no Brasil não se deram só no campo da política, mas no da cultura também, e o tropicalismo é um exemplo disso. O maio de 1968 e as ideias de 1968 no exterior são um pouco diferentes do que aconteceu aqui. No Brasil foi a partir do declínio da ditadura militar que começaram mais fortemente as pretensões do feminismo, da luta contra o racismo, dos homossexuais. Isso estava em gestação no fim da ditadura militar. Quando cheguei ao Brasil, em 1979, havia um jornal chamado Lampião que era o primeiro porta voz do movimento gay e surgiu com uma distância grande de 1968. Da mesma maneira, o movimento feminista ganhou maior dimensão no país a partir da democratização. Esses movimentos se fortaleceram no processo de democratização.
O movimento de 1968 se expressou em diferentes países e em tempos diferentes. Aqui a luta principal era em torno da derrubada do governo autoritário. No exterior era uma luta mais cultural. O slogan de nosso “maio de 1968” era “proibido proibir” ou “desejamos o impossível”. São coisas que expressavam uma situação em que o movimento dos trabalhadores, já não era mais o grande sujeito das transformações. As expressões não eram mais econômicas, eram culturais. Esse processo foi mais lento no Brasil, quando as expressões culturais passam a ser mais importantes.
Existe hoje no Brasil uma grande presença do feminismo, do movimento negro, do movimento gay. Todas essas questões foram assimiladas. Agora, o quanto avançamos depende de como vemos. Se entendermos o avanço em termos de nossas identidades culturais, avançamos muito. Mas, precisamos entender também qual foi o preço do avanço das identidades culturais, que enfraqueceram um pouco a força da luta nacional. Começou a ter uma divisão bem forte na própria sociedade, que não está apenas nas identidades culturais, mas em toda luta política.
Nós nos dividimos muito mais do que estávamos divididos no passado. Na luta pelas Diretas estávamos todos no mesmo palanque. A luta nacional era uma coisa pensada. Tínhamos objetivos nacionais. Com o nível de radicalização e de hostilidade recíproca, que aconteceram de lá para cá, as ideias de um projeto nacional em torno de alguma coisa que supere identidades e diferenças ideológicas é muito difícil hoje. Talvez mais do que no passado.

*O que é ser progressista?
Para responder a esta pergunta, é preciso avaliar a palavra progresso. Que tipo de progresso se quer. Tem progressista que quer o crescimento econômico. Tem o progressista que não deseja o progresso econômico a todo custo, mas um progresso sustentável. Não só na preservação de recursos naturais, mas também em uma ética das nova geração. A ética nas novas gerações é progressista.

*Como o senhor se define hoje politicamente?
Eu não sinto essa necessidade de me definir. Tive uma formação mais de esquerda, procuro avaliar o que considero correto ou não nas ideias de esquerda. E, hoje, tomo posições um pouco desconfiado de uma rigidez ideológica. Busco encontrar soluções que, independente de serem direita ou esquerda, me pareçam mais adequadas. Eu respeito as pessoas que são de esquerda e de direita, mas nem sempre elas têm razão em tudo.

*O que é ser esquerda?
Não acho a forma de ser de esquerda no Brasil adequada. Na minha opinião, ser de esquerda hoje é compreender, primeiro, que a democracia não é apenas uma tática. A democracia não é um pretexto para se chegar ao controle total do poder. A democracia é uma visão estratégica e algo a se conquistar progressivamente, cada vez mais. Isso já define um nível de esquerda fundamental. Ser de esquerda também significa avaliar se ela tem alguma alternativa para o capitalismo. É algo para se discutir. Se a alternativa para o capitalismo se produz na mesa de trabalho ou vai se mostrar ao longo do desenvolvimento do próprio capitalismo.
Em outras palavras, se a história tem script ou não. Eu sou daqueles que acham que hoje a história não tem script pré-determinado. Então, nesse sentido, eu não sou de esquerda. Não tenho nenhuma fé no curso da história, em determinado rumo.

*O Brasil atravessa uma de suas maiores crises – política, moral e econômica. Passamos pelo impeachment de Dilma Rousseff, por um período de grave recessão na economia, temos enfrentado o combate a corrupção e testemunhado um conflito institucional entre judiciário e classe política. Como desdobramentos tivemos intervenção federal no Rio de Janeiro, a morte de Marielle e a prisão de Lula. Qual a sua visão sobre esse momento que vivemos?
O momento é de pensar nas eleições de 2018 e discutir, amplamente, a reconstrução do país em novas bases. Isso, para mim, é o principal do momento, que está ofuscado pelos fragmentos do passado. A prisão do Lula, todas as coisas que foram avaliadas em termos de corrupção, o desenvolvimento da Lava Jato já são hoje secundários frente a necessidade que temos de olhar para frente. De pensar como vamos sair dessa crise e buscar algum entendimento.
Seria excelente se discutíssemos com paixão, mas discutíssemos também compreendendo que as ideias brigam, mas as pessoas não devem brigar. Seria necessária uma discussão que clareasse o rumo dos políticos sobre o que fazer, a partir de janeiro de 2019.

*As eleições de 2018 podem apaziguar a instabilidade política do país?
Eu não acho. Nas eleições sempre há muita polarização. Mas, se conseguirmos retirar essa polarização da cena principal, o lado mais radical da polarização, fica mais fácil a gente se aproximar de alguns consensos nacionais. Agora é inevitável que exista polarização de extremos. É inevitável que pelas circunstâncias históricas e desenvolvimento da conjuntura, o extremo mais a direita cresça e chegue aos seus limites nessas eleições. Alguns extremos da direita chegaram no segundo turno em outros países como na França na eleição do Macron e Marie Le Pen. Esse processo me parece que vai também se configurar no Brasil.

*O senhor já tem candidato a presidência da República?
Não (risos). Nessas eleições minha intenção não é comentar as características de um ou outro candidato. Mas, discutir coisas que possam ser consensuais para tentar levar qualquer vencedor a considerar isso uma demanda que tem que ser atendida.

*Além de jornalista e escritor, o senhor tem um percurso político admirável:  combateu a ditatura, foi candidato a governo e prefeitura do Rio de Janeiro, também a presidência da República, foi deputado federal por mais de um mandato, defendeu causas nobres e caras ao Brasil, principalmente, nas questões ambientais. Por que o senhor continuou jornalista e escritor e abandonou a política?
Perdi quase todas as eleições, de modo que não posso ser considerado um vencedor nesse campo. Fui eleito como deputado quatro vezes e procurei desenvolver meu trabalho. Em determinado momento senti que a questão da corrupção tinha um papel fundamental. Me dediquei um pouco ao combate a corrupção. Fui sub-relator de uma CPI que funcionou, chamada CPI dos Sangue Sugas, que teve efeito razoável. Mas, a partir do segundo governo do Lula, as coisas ficaram muito difíceis para se lutar contra a corrupção no Congresso. Você estava em território minado. Eu senti que era deputado, mas que não conseguia fazer aquilo que era necessário. Então decidi abandonar e voltar a minha carreira de jornalista, que gosto muito. Comecei quando garoto e estou terminando agora.

*O atual cenário político do Rio de Janeiro é desolador. A Lava Jato e essa crise toda trouxe à tona a precariedade da política carioca. O Estado tem pouquíssimos quadros qualificados de políticos.  O senhor era com certeza um deles, mas não permaneceu na política. O que acontece no Rio de Janeiro?
O que aconteceu no Rio foi um longo período de dominação do PMDB. E toda minha atividade eleitoral, independente das propostas da campanha, era no sentido de derrotar esse grupo, que me parecia bastante problemático pela corrupção e pela incompetência. Isso não foi realizado porque se vivia, no momento, uma euforia do petróleo. Havia também muito dinheiro injetado no Rio de Janeiro através da aliança entre o Lula e o Cabral. A sociedade se deixou seduzir pela candidatura do Cabral e pelo que propunha, que era muito sedutor: prosperidade, abundância de dinheiro, algo que interessava muita gente. Todos participando desse banquete. Então houve uma tendência à vitória dele.
Era muito difícil competir com o Cabral. Além deles terem muito dinheiro, que vinha da corrupção, tinha também a sedução do crescimento econômico e um investimento maciço do governo federal aqui. Isso fez com que a oposição se desarticulasse e, agora, com a queda do Cabral não tem no Rio de Janeiro nenhuma alternativa para a reconstrução. Eu concordo que há uma escassez grande de quadros para a transição.

*O descrédito da atividade política e dos políticos dominam o país como um todo. O que seria, na sua opinião, a tão desejada renovação política no Brasil? Como chegar lá?
Uma coisa que a prática no Congresso me mostrou é que a renovação não pode ser apenas a entrada de novos nomes. Porque mesmo que entrem com boas intenções, depois de um tempo, que nada mudou na estrutura, no funcionamento do Congresso, as pessoas passam a falar a linguagem dos velhos. Elas começam a falar o idioma antigo.
É preciso mudar aspectos do funcionamento, do mecanismo para que a pessoa não seja sufocada ou engolfada pelo tradicional. A renovação nunca pode ser confiada como uma renovação a partir do zero. Vou te dar um exemplo cômico. Se tivéssemos 512 deputados novos e mais o Eduardo Cunha eleito, era capaz dele enrolar todos e dirigir o Congresso durante muito tempo, com os mecanismos e as coisas que existem lá. Então é fundamental que exista uma preocupação mais articulada de se apoiar pessoas que passaram pelo Congresso, dispostas a renovar, mas que não tiveram oportunidade de fazer isso no mandato. Elas podem transmitir essa experiência, que ajudaria a conduzir um outro caminho lá dentro.

*É preciso fazer um redesenho institucional?
O redesenho institucional implica uma coisa muito ampla, que talvez a gente não possa fazer. Deve haver uma série de medidas e caminhos a ser conquistada em associação com esse grupo renovador. Um grupo que se salva no Congresso e a sociedade. O foro privilegiado é uma das metas. Acabar com o foro privilegiado e outros fatores que podem contribuir um pouco para controlar a corrupção.
Outra coisa que minha presença lá dentro ensinou é que um grupo articulado de renovadores, em contato e permanente debate com a sociedade, tem poder de conquistar muitas coisas. Nós tivemos dificuldade para garantir o voto aberto nas cassações de mandatos. Quando essa questão foi colocada houve um grande empenho da sociedade para que o voto aberto fosse adotado. E levamos isso a voto aberto e a votação foi quase maciça. Então cada vez que você consegue colocar um tema na agenda e envolver a sociedade, a pressão sobre o Congresso é grande, e você pode obter algumas vitórias. Isso dá mais poder à sociedade dentro do próprio Congresso.

*Em maio de 2018, como o senhor enxerga o futuro do Brasil?
Eu não enxergo claramente o futuro do Brasil. Mas, o Brasil avança em vários campos. Em termos econômicos estamos vivenciando uma recuperação econômica. Acho que o Brasil pode recuperar a importância econômica que estava adquirindo inclusive no mundo. Podemos reconstruir o sistema político partidário, que tenha o mínimo de respeito e integração com a sociedade. No campo cultural, espero um Brasil criativo, reverente com todas as suas características.
O Brasil não acabou. Não estou esperando um Brasil, porque o Brasil está aqui. E existem muitas coisas no Brasil, que me apoio em termos de esperança. Uma delas é o potencial de nossa riqueza natural. É claro que o processo de destruição ambiental traz preocupação. Mas, podemos esperar que exista, cada vez mais no Brasil, uma consciência de preservação do meio ambiente. Eu espero um Brasil mais sustentável e consciente da importância das suas riquezas naturais.
Agora vou te confessar a última coisa. É isso que espero, mas já esperei coisas e nem todas as coisas que esperei se realizaram. Tudo vai depender de combinar com os russos.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

CBF


Já que estamos em tempos de convocação e Copa, uma coisa que sempre me intrigou é como é que a CBF apesar de ser uma associação privada (cuja principal atividade econômica é a produção e promoção de eventos esportivos) pode mandar e desmandar no futebol daqui a ponto de representar o Brasil oficialmente sem que até hoje nenhum governo tenha se manifestado contra esse absurdo, apesar de serem públicas e notórias as roubalheiras praticadas em nome dela, desde tempos imemoriais e, cujo ícone, João Havelange, foi um criminoso reconhecido mundialmente como tal.


O cidadão e a "Constituição Cidadã"


O cidadão pega a Constituição de 1988, começa a ler e fica empolgado quando se depara com o Artigo 5º que diz: “TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI, SEM DISTINÇÃO DE QUALQUER NATUREZA, GARANTINDO-SE AOS BRASILEIROS E AOS ESTRANGEIROS RESIDENTES NO PAÍS A INVIOLABILIDADE DO DIREITO À VIDA, À LIBERDADE, À IGUALDADE, À SEGURANÇA E A PROPRIEDADE”.

“Beleza!”, diz ele, principalmente ao desfiar os parágrafos que falam de liberdade disso e daquilo e vibra quando chega ao parágrafo XXXVII e lê que “NÃO HAVERÁ JUÍZO OU TRIBUNAL DE EXCEÇÃO”.

Como ele é persistente, vai em frente, mas chegando ao Artigo 102º que diz que “COMPETE AO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, PRECIPUAMENTE, A GUARDA DA CONSTITUIÇÃO” leva um susto ao ver que logo no primeiro parágrafo algumas das competências do STF são: “I - PROCESSAR E JULGAR, ORIGINARIAMENTE: (...) b) NAS INFRAÇÕES PENAIS COMUNS, O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, O VICE-PRESIDENTE, OS MEMBROS DO CONGRESSO NACIONAL, SEUS PRÓPRIOS MINISTROS E O PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA; c) NAS INFRAÇÕES PENAIS COMUNS E NOS CRIMES DE RESPONSABILIDADE, OS MINISTROS DE ESTADO E OS COMANDANTES DA MARINHA, DO EXÉRCITO E DA AERONÁUTICA, OS MEMBROS DOS TRIBUNAIS SUPERIORES, OS DO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO E OS CHEFES DE MISSÃO DIPLOMÁTICA DE CARÁTER PERMANENTE”.

“Peraí!”, exclama. “Não disseram lá em cima que ‘não haverá juízo ou tribunal de exceção’? Não entendi!”

O cidadão, que é leigo em Direito, mas não é idiota, acabou de descobrir um privilégio que afronta diretamente o Artigo 5º da Constituição Federal, um “foro privilegiado” ou “foro especial por prerrogativa de função”, eufemismo jurídico inutilmente criado com o sentido desonesto de disfarçar a vantagem escancarada autoconcedida pelas ditas autoridades.

Não satisfeito, o cidadão sai fuçando aqui e ali e descobre que a justificativa é a necessidade de se proteger o exercício da função ou do mandato público. Dizem eles que, como é de interesse público que ninguém seja perseguido pela justiça por estar em determinada função pública, então considera-se melhor que algumas autoridades sejam julgadas pelos órgãos superiores da justiça, tidos como mais independentes.

“Papo furado!”, indigna-se.

O humor do cidadão piora quando descobre em suas pesquisas que tem mais gente, muito mais, incluída no tal “foro especial por prerrogativa de função”. São os Governadores, julgados, em crimes comuns, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ); são os prefeitos, julgados pelos Tribunais de Justiça estaduais; são os desembargadores dos tribunais de justiça, membros de Tribunais de Contas estaduais e municipais, além de membros de Tribunais Regionais (TRF, TRT, TRE, etc), julgados pelo STJ; são os Juízes Federais, do Trabalho, Juízes Militares e Procuradores da República, julgados pelos Tribunais Regionais Federais e são os membros do Ministério Público.

“Caraca, são 55 mil!”, estarrece-se e parte para pesquisar estatísticas.

“Bom, vamos ver então a eficiência desses tais tribunais de exceção. Pelo menos isso tem que corresponder.”, decide.

Tudo começou bem, quando o cidadão verificou que até janeiro de 2018 a primeira instância da Justiça do Paraná contabilizou 72 acusações criminais, 37 delas já com sentenças, contra 289 pessoas. Foram 177 condenações até 2017, contra 113 pessoas, totalizando 1.753 anos e 7 meses de penas. Os registros mostram ainda 1.765 procedimentos instaurados, 881 mandados de busca e apreensão, 222 mandados de condução coercitiva, 101 prisões preventivas e 163 acordos de delação premiada. Na Justiça do Rio de Janeiro, as 25 denúncias do MPF, contra 134 pessoas, já resultaram em 4 sentenças, 31 condenados, com penas somadas de 377 anos e 5 meses de reclusão, além de 57 prisões preventivas, 34 conduções coercitivas, 211 buscas e apreensões, 15 acordos de delação homologados e 17 operações em conjunto com a Polícia Federal e a Receita Federal.

“Maravilha, mas isso é o pessoal que perdeu ou nunca teve o tal foro privilegiado, é justiça comum.” E partiu para o STF. E foi aí que a coisa pegou.

Começou com o levantamento feito pela VEJA em 2015: dos 500 parlamentares que foram alvo de investigação ou de ação penal no STF nos últimos 27 anos, apenas 16 foram condenados. Desses, 8 foram presos. Os demais ou recorreram, ou contaram com a prescrição para se livrar das ações penais.

A coisa piorou quando leu que desde março de 2015, 193 inquéritos no âmbito da Lava Jato foram instaurados no STF. Entre eles, 36 resultaram em denúncias criminais e 7 em ações penais que envolvem 100 acusados. Segundo dados obtidos no site do Ministério Público Federal (MPF), 121 acordos de colaboração premiada já foram submetidos ao Supremo até janeiro deste ano. Só que o número de condenações de políticos, no entanto, ainda é zero. Isso mesmo, cidadão, zero!

“Quer dizer então que o foro é biprivilegiado? Além da prerrogativa de função os criminosos têm a prerrogativa de contar com um foro conivente com seus crimes?”, e decidiu, danado da vida, mudar-se para Serra da Saudade, município de Minas, com 812 habitantes, e candidatar-se a vereador.