terça-feira, 10 de junho de 2014

Curiosidades etimológicas

Do Blog do Deonísio da Silva

Boato: do Latim boatus, originalmente berro do boi, do verbo boare, berrar, vindo do Grego boáo, gritar. Passou a designar alvoroço, gritaria, notícia proclamada em altas vozes, em oposição ao rugeruge, ao sussurro, ao cochicho. Consolidou-se, porém, como notícia falsa. O filólogo e dicionarista gaúcho Celso Luft (1921-1995) ensina em ABC da Língua Culta: “Como a tendência semântica é boato=‘notícia infundada’, as combinações ‘boato verdadeiro’ e ‘boato falso’ vão sendo evitadas”. O Dicionário Caldas Aulete é implacável: “História ou notícia que se divulga sobre alguém ou algo, sem que se confirme sua origem ou veracidade”, abonando com este trecho do escritor fluminense Euclides da Cunha (1866-1909) em Contrastes e Confrontos: “Surdo boato, dos que por aí irrompem e se alastram, sem que se saiba de onde partem...”.

Dedéu: de origem controversa, provavelmente de duplicação de déu, de etimologia desconhecida, significando de casa em casa, de porta em porta, de lugar em lugar. Dedéu consolidou o significado de muito, em grande quantidade, como se comprova na expressão “longe pra dedéu”, muito distante. Já a abonação de déu em déu aparece no diálogo de uma crônica resultante de visita que o escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948) fez à pianista paulista Guiomar Novais (1896-1979): “- E deu muitos concertos? - Só em Paris toquei nuns trinta, em Londres nuns oito, em Berlim noutros tantos, em Lausanne não sei em quantos; andei de déu em déu.” Persiste a hipótese de que déu seja variante de deu, do verbo dar, com o sentido de viajar, chegar, ir: “Tomando tal caminho, deu ou bateu com os costados em tal lugar”.

Forfait: do Francês medieval forfait, que foi ao Inglês forfeit e voltou ao Francês forfait para designar crime, falta grave, ligado ao verbo forfaire, fazer fora, isto é, cometer falta, praticar delito. Mas no Inglês, a língua por excelência do turfe, veio a designar a quantia paga pelo proprietário quando o cavalo deixa de participar do páreo em que estava inscrito. Fazer forfait tomou o significado de faltar a um compromisso, mas também o de bagunça, zoeira, desorganização, por força da controvérsia surgida nessas compensações. Ainda não houve aportuguesamento da palavra.

Mata-galegos: de matar, do Latim vulgar mattare, adaptado de mactare, fazer ofertas aos deuses, imolando vítimas e por isso ganhando o significado de acabar com a vida dos animais e tornando-se, por extensão, sinônimo de levar alguém à morte; e de galegos, do Latim gallaecus, habitante da Gallaecia, depois Galécia, Galícia ou Galizia, do mesmo étimo de galaico, como na palavra composta galaicoportuguês, designando dialeto do Português. Os galegos da expressão eram imigrantes portugueses que nas crises do começo do século XIX disputavam os empregos dos brasileiros. Os ônibus cujas traseira e dianteira eram muito semelhantes, a ponto de serem confundidas, eram chamados mata-galegos e esta expressão foi parar nos dicionários. Galego designou de início pessoa de pouca instrução.

Pelada: de origem controversa, talvez de péla, do Latim pilella, diminutivo de pila, bola, novelo de lã. Pode ter havido mistura com pelo, pois as primeiras bolas eram de couro cru, com pelos. Designando jogo de futebol desorganizado, formou-se por catacrese: nos campos onde era e é praticado falta grama, sobretudo em lugares como a pequena área, que parece pelada. Dá-se catacrese quando uma palavra, à falta de uma outra específica, supre esta falta, como em perna da mesa.

E, como agora está muito em moda...

Manifestação: do étimo latino “manifest”, porque apanhado com o a coisa na mão (manus), em geral produto de roubo. Veio a designar clareza, evidência.

Protesto: Pro (em favor de ), mais o étimo Latino “test”, de testemunha, onde protestar significar testemunhar publicamente, não no fórum! Nas ruas!

Desordem: do prefixo “des”, indicando o contrário, e do Latim “ordo”, fileira, alinhamento, classe,posto do soldado na batalha etc. Fiz-se ordem porque procede da declinação “ordine”. O étimo está em ordinário (do Latim ordinarius, escravo que mandava nos outros, dava-lhes ordens), extraordinário, coordenador, desordenado, subordinado. E em ordenação, sacramento pelo qual o bispo faz de um homem um padre, que recebe as ordens de poder ministrar sacramentos. O padre é ordenado. O bispo é sagrado. O papa é eleito em conclave (com chave, isto é, a portadas fechadas). Nos cargos civis, os funcionários não nomeados, designados etc. Nos cargos militares, recebem as patentes (do étimo latino PATENS, exposto, público: todos devem saber qual o posto, cargo e nome estão na farda etc).

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