Muito bom o artigo de Pondé. Gosto de gente cujas convicções
não excluem os méritos de outras e até os reconhece.
Você lembra do filme com Jack Nicholson chamado “Melhor É
Impossível”? Há uma cena em que ele, um obsessivo-compulsivo (diríamos, um caso
grave de TOC), de repente, saindo do analista, se dá conta: “E se melhor do que
isso for impossível?”. Referia-se a seu quadro tenso, cheio de rituais
obsessivos, mas rasgado por um esforço cotidiano de enfrentá-lo.
Pois bem, outro dia, em meio a uma aula com alunos de
graduação, discutindo se é melhor ser religioso ou não, essa questão apareceu: “E
se a vida não puder ser melhor do que isso?”. Ou: “E se uma vida melhor for
impossível de se conseguir?”. Que vida é essa da qual falávamos? O que pensa um
jovem de 20 anos acerca do que seja qualidade de vida?
A questão se apresentou quando ouvíamos uma menina,
religiosa, dizer o quanto melhor era a qualidade de vida que se tinha vivendo
dentro de uma comunidade religiosa. Melhores amizades, melhor namoro, meninos
mais honestos, melhores férias, melhor convívio com os pais, enfim, melhor tudo
que importa, apesar de nunca ser perfeito.
Os semiletrados pensam que jovens gostam de ser “livres”.
Risadas? Jovens
querem famílias estáveis, casa com segurança, futuro garantido, um grupo para
dizer que é seu, códigos que os definam de forma clara e distinta, enfim, de um
quadro de referências que torne o mundo significativo e seu.
Quando encontram, aderem de forma muito mais direta do que
pessoas com mais de 30. Estas já começam a entrar no desgaste cético que a vida
impõe a todos nós. Da louça que lavamos, do sexo meia boca que fazemos à arte
que cultivamos.
Basta ver o caráter dogmático do movimento estudantil pra
ver esse tipo de adesão direta e sem medo dos jovens. Às vezes temo que mais
atrapalhamos os jovens do que os ajudamos com o conjunto de exigências que
fazemos a eles: sejam diferentes, mudem o mundo, rompam com tudo, inventem-se.
Woodstock foi um surto do qual eles já se curaram, mas nós não.
Mas, de volta a: “E se a vida não puder ser melhor do que
isso?”.
O problema era: É melhor viver sem religião ou viver
aceitando um código religioso claro?
E vejam: no dia a dia, os poucos jovens religiosos que
conheço no meio que frequento costumam ser melhores alunos, mais atentos ao que
se fala em sala de aula, menos inseguros com relação a temas como sexo, drogas
e rock and roll, assim como também quando se fala de futuros relacionamentos.
Enfim, parecem saber mais o que querem e serem menos permeáveis às modinhas
bobas que existem por aí.
A conclusão parece ser que uma adesão a uma vida religiosa
sem exageros de contenção de comportamento nutre mais esses meninos e meninas
ao redor dos 20 anos do que a parafernália de teorias que a filosofia ou as
ciências humanas produziram nos últimos séculos.
É como se as religiões tradicionais (como digo sempre, se
você quiser uma religião, pegue uma com mais de mil anos...) carregassem uma
sabedoria mais instalada, apesar de silenciosa, com relação ao que de fato eles
precisam.
E se tivermos alcançado algum limite nas utopias propostas
para a modernidade? E se o surto do século 18 pra cá tiver se esgotado como fórmula
e chegarmos à conclusão que, como pequenos ajustes aqui e ali, pequenas
correções de percurso (um cuidado com os recursos do meio ambiente, uma
sensibilidade maior aos riscos de um materialismo extremado, maior longevidade,
beijo gay na novela das nove), a vida se impõe em seu ritmo como sempre se
impôs aos nossos ancestrais?
E se o velho ritmo de nascer, crescer, plantar, colher,
reproduzir e morrer, com variações criadas pela Apple, for tudo o que temos? E
se for justamente essa “perenidade do esforço” impermeável às modas de
comportamento a realidade silenciosa da vida?
E se o Eclesiastes, livro que compõe o conjunto de quatro
textos da Bíblia hebraica (que os cristãos chamam de Velho Testamento)
conhecidos como Sabedoria Israelita (Provérbios, Eclesiastes, Livro de Jó e
Cântico dos Cânticos) estiver certo, e não existir nada de novo sob o Sol? E se
tudo for, como diz o sábio bíblico, vaidade e vento que passa?