terça-feira, 15 de novembro de 2016

Lições da América - Por que Trump foi eleito

Antonio Barreto, colunista do Diario de Noticias (Lisboa)

Há uma espécie de concurso entre as elites europeias e americanas de esquerda: quem insulta mais Donald Trump? Quem consegue escolher os epítetos mais violentos? Racista, boçal, cretino, sexista, corrupto, inculto e xenófobo estão entre os mais utilizados. Isto para além das classificações brandas de fascista e populista.

No entanto, o problema não é o de qualificar Trump nem de sublinhar a sua incultura e a sua falta de sofisticação. O problema consiste em saber por que razão foi eleito. Contra a opinião sondada e publicada, este senhor foi escolhido por 60 milhões de americanos que, creio, não são todos racistas, machistas, bandidos, milionários, fascistas e corruptos. E, se fossem, a questão era ainda mais difícil: como é possível que houvesse tantos assim?

O problema não é o de classificar os defeitos de Trump e seus apoiantes nem de mostrar como são violentos, intolerantes, xenófobos e déspotas. O problema é o de saber por que razões perderam os virtuosos, os democratas, os liberais, os intelectuais, os jornalistas e os artistas. O problema é o de saber por que razão os pobres, os desempregados e os marginalizados não votaram em quem deveriam votar, isto é, em quem pensa que a solidariedade, a segurança social, o emprego e a igualdade são exclusivos dos democratas e das esquerdas.

As esquerdas em geral, incluindo artistas, intelectuais, jornalistas, liberais americanos e progressistas europeus, não suportam não ter percebido nem ter previsto o que aconteceu. Como não admitem que são, tantas vezes, responsáveis pelas derivas políticas dos seus países.

Já correm pelo mundo explicações fabulosas sobre estas eleições. As mais hilariantes são duas. Uma diz que, além dos machistas e dos racistas, votaram em Trump os analfabetos, os desesperados, os marginalizados pelo progresso, os desempregados e os supersticiosos. A outra diz que o fiasco das sondagens, dos estudos de opinião e dos jornalistas se deve ao facto de os reaccionários terem vergonha de dizer em quem votariam! Por outras palavras: quem não presta votou em Trump; e quem votou em Trump enganou-nos!

Tal como os democratas em geral, as esquerdas atribuem sempre as culpas das suas derrotas aos defeitos dos outros, da extrema-direita, dos ricos, dos padres, dos fascistas, dos proprietários, dos patrões, dos corruptos e agora dos populistas. Não pensam que os culpados são ou também são eles, os democratas, ou elas próprias, as esquerdas. Raramente se dão conta de uma verdade velha, com dezenas de anos, mas sempre esquecida: as democracias não caem por serem atacadas, não são derrubadas pelos seus inimigos, caem por sua própria responsabilidade, porque enfraquecem, porque se dividem, porque perdem tempo e energias com quezílias idiotas e porque deixam que o sistema político perca de vista as populações. Também, finalmente, porque acreditam nas suas virtudes, porque confiam na sua racionalidade e porque consideram que têm o exclusivo da bondade e da compaixão.

As esquerdas (nas suas versões americana e europeia) apresentam-se cada vez mais como uma soma de sindicatos e de clientelas: mulheres, negros, operários da indústria, desempregados, pensionistas, homossexuais, artistas, intelectuais, imigrantes, latinos ou muçulmanos. Todas as minorias imagináveis, incluindo as mulheres que o não são. Às vezes, resulta. Mas acaba sempre por não resultar. As esquerdas abandonaram as ideias e os direitos universais dos cidadãos e valorizam as suas circunstâncias étnicas, sociais ou sexuais. Como também abandonaram a capacidade de pensar a identidade nacional, entidade ainda hoje vigorosa e reduto de referências pessoais e culturais.

Acima de tudo, a arrogância e a superioridade moral, cultural e política das esquerdas têm destes resultados: afastam-nas do povo e favorecem os inimigos da democracia.

Vazamentos de e-mails, espionagem russa, investigações do FBI e escândalos envolvendo ditaduras e grandes corporações ao redor do mundo. O que poderia muito bem ser um filme político clichê de Hollywood é, na verdade, um resumo das últimas semanas que antecedem as eleições americanas. Caminhando para o que parecia uma vitória fácil, a candidata democrata Hillary Clinton se viu subitamente lançada em um mar de lama.

Mas essa história não nasceu durante a campanha.

6 comentários:

  1. (argento) ... "A Trilogia do Templo", de José Rodrigues Trindade, se procurar acha, "de-grátis", em PDF ...

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  2. O cara não falou nada sobre o processo eleitoral que elegeu Trump, falou de esquerda e direita, sendo que o foco foi fazer acusações contra a esquerda. Manifestações de artistas é coisa de esquerda, mesmo com manifestações de artistas apoiando o Trump. Jornalistas são coisa de esquerda, mesmo com jornalistas e meios de comunicação apoiando o Trump. A esquerda, representada pelo Partido Democrata, demonizou o Trump, mesmo com membros históricos declarando publicamente que não o apoiariam e até mesmo, que votariam em Hilary, mesmo com a direção do Partido Republicano pedindo que ele renunciasse à candidatura.

    É, o cara entende mesmo das coisas.

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    1. (argento) ... sabe, Milton, não há muito que discutir sobre fato consumado (o "caso trump"); é chover no molhado, procurar pelos em ovo, discutir o sexo dos anjos, etc, etc, etc.

      Escrevi no TMU: "- vai dar Clinton", baseado (ops!) no jogo de cartas marcadas (mainframe) comum; não deu Clinton. E daí?; de duas uma: 1- vai ser bom para o Brasil. 2- não vai ser bom para o Brasil. 3- o BraZiu não tem mais jeito ...

      Quem arrisca?

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    2. Só concordo com a 3ª hipótese, e sem ser pessimista...

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  3. Depois que 270 economistas divulgaram manifesto contra o Trump, sendo 19 deles, vencedores do Premio Nobel, devo admitir que quem entende mesmo do assunto é o Mangabeira Unger:

    http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37977412

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    1. (argento) ... Depois que 270 economistas divulgaram manifesto contra o Trump, ou depois que "270 cientistas" divulgaram o "aquecimento global" e, depois do Estatuto do diMenor, fudeu!, ninguém mais se entende ...

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