Nelson Motta resolveu virar o “fumo de um sabor só”: a única
coisa que escreve é sobre as vantagens da liberação da maconha e hoje não foi
diferente, reclamando, inclusive, da má qualidade do fuminho no Brasil.
Só que, por coincidência, Ruy Castro também escreveu sobre
jererê, mas sob um outro prisma: em vez de ficar fazendo apologia, aponta os
perigos inerentes à sua liberação e da alta qualidade do fumo.
Muita fumaça e pouco fogo - Nelson Motta
Em Barcelona, já são mais de 400 clubes legalizados, onde a
inscrição custa dez euros e o sócio pode comprar até 80 gramas por mês de
diversas qualidades de maconhas orgânicas, produzidas por pequenos agricultores
autorizados. Está ficando banal, todo dia se tem noticia de mais um lugar em
que o tabu está sendo quebrado, além dos 20 estados americanos que já permitem
o “uso medicinal” e dos dois que liberaram geral, da estatização no Uruguai, da
bem-sucedida descriminalização portuguesa…
Mudou muita coisa e, ao mesmo tempo, não mudou nada na vida
desses lugares e de seus cidadãos. As pessoas não estão saindo enlouquecidas
pelas ruas, não há hordas de doidões invadindo lanchonetes em busca de laricas,
os funcionários não estão dormindo nos escritórios, a criminalidade e a
violência nem aumentaram e nem diminuíram, as famílias não estão se sentindo
ameaçadas, a polícia tem mais o que fazer do que perseguir cidadãos honestos e
pacíficos que gostam de fumar um baseado.
Um golpe mortal no tráfico e no crime organizado? Nem
chapado alguém pode acreditar nisso. O tráfico de verdade, o definitivo e
invencível, faz fortunas e milhares de mortos com cocaína, crack, heroína,
ecstasy e uma infinidade de novas drogas sintéticas e quase invisíveis, que dão
muito mais lucro com muito menos risco do que a volumosa e olorosa maconha.
Diante do mercado milionário de analgésicos tarja preta, que
já tem seis milhões de dependentes nos Estados Unidos, o tráfico de marijuana
virou coisa de pobre, do passado.
O mais triste é pensar nos trilhões de dólares torrados, no
tempo, no trabalho e nas vidas perdidas, nas incontáveis pessoas de bem que sofreram
o diabo nas cadeias por alguns baseados, nos que se tornaram bandidos e
marginais, na trágica inutilidade de tudo isso. Tanto barulho por nada, por um
bagulho.
Enquanto isso, no Brasil, onde os consumidores dizem que se
fuma uma das piores e mais caras maconhas do mundo, produzida no Paraguai e
distribuída pelas facções do crime organizado, o governo e o Congresso vão
enrolando, a polícia vai apertando e continuamos queimando tempo e dinheiro.
Maconha comestível - Ruy Castro
No Estado americano do Colorado, onde o uso recreativo de
maconha foi liberado, as crianças ainda sem idade para fumar não precisam
passar sem a erva. Em Denver, sua capital, lojas dedicadas ao produto oferecem
fascinantes derivados: compotas de pêssego e tangerina, drops de melancia,
trufas de chocolate, barras de menta, biscoitos amanteigados, bolos, pirulitos
e outros doces, todos enriquecidos em sua preparação com uma calda de maconha.
Deu no “New York Times” de 31/1.
Os médicos, professores e associações de pais não ficaram
tão empolgados. Seus filhos lhes apareceram sonolentos, desorientados, babando
e com respiração difícil. Levados ao hospital, testaram positivo para THC
(tetraidrocanabinol), que é a substância psicoativa da droga. A ideia de tornar
a maconha comestível surgiu para atender usuários impedidos de fumá-la em
certos ambientes e pessoas com dificuldade para engolir fumaça. Era inevitável
que seu uso atraísse outros interessados.
As lojas alegam que é difícil manter esses produtos fora do
alcance dos menores. Eles não estão impedidos de comprá-los e, mesmo que
estivessem, sempre haveria quem comprasse por eles. Uma medida imposta pelas
autoridades, proibir que as embalagens mostrassem personagens tipo Piu-Piu ou
Pica-Pau, revelou-se inócua. Resta o preço, diz o “Times”: uma única bala de
maconha custa o equivalente a um saco de balas comuns.
Intelectuais ativistas da liberação desprezam o fato de que
a maconha atual contém dez vezes mais THC que a dos anos 60 --ou seja, Bob
Marley precisaria fumar dez baseados para valer um fumado hoje por Justin
Bieber. Talvez por isso os médicos não a recomendem para crianças.
Mas, como a tendência parece irreversível, podemos esperar
pelas novas redes de junk food: a Hashishburger, McHemp e Kentucky Fried Skunk.









